O Estado da Arte



Desde o seu aparecimento no início da década de noventa, os portefólio digitais têm sido alvo de grande debate, experimentação, investigação e análise, contribuindo assim para uma evolução crescente e divulgação global desta nova ferramenta educativa. Tendo as suas raízes nos portefólio denominados tradicionais, os portefólio digitais resultam da união destes com as novas tecnologias da informação, imprimindo assim uma nova dimensão e modernidade a um conceito clássico. O grande desenvolvimento que as novas tecnologias estavam a ter na época e que ainda persiste nos nossos dias, tem contribuído em grande medida para o progresso dos portefólio digitais, quer através de um aperfeiçoamento técnico, quer através de um aumento significativo das funcionalidades associadas aos mesmos.

1.Portefólio digitais


1.1. Enquadramento

O interesse crescente do sector da educação pelo potencial das novas tecnologias resultou no aparecimento de diversas ferramentas educativas que têm vindo a mudar a forma como a própria aprendizagem é feita. Além dos portefólio digitais, diversas ferramentas, tipicamente relacionadas com o e-Learning, são disso um claro exemplo. De facto, a união das novas tecnologias com a educação é considerada por muitos como a ansiada solução para os problemas existentes actualmente neste sector.

Os portefólio digitais têm um grande potencial também para educadores e instituições, na medida em que incentivam uma organização e actualização constantes. Os portefólio digitais têm também um papel importante no meio empresarial. A visão geral dos conhecimentos e capacidades do candidato que os portefólio digitais proporcionam, contribui para uma nova forma do empregador obter informações relevantes sobre o mesmo. Desta forma, a entidade empregadora pode ter uma melhor percepção das aptidões de um determinado candidato através da análise de trabalhos realizados, não dependendo unicamente da informação textual presente num Curriculum Vitae.

1.2. Definição

Tendo como antecessores os portefólio tradicionais, os portefólio digitais ou e-Portefólio (termo como são mais conhecidos a nível internacional) derivam da união entre o conceito clássico da tradicional pasta contendo uma amostra de trabalhos, com a valorização proporcionada pelas novas tecnologias da informação. De seguida, é apresentada uma definição para e-Portefólio de George Lorenzo e Jonh Ittelson:

“Um e-Portefólio é uma colecção digitalizada de artefactos, incluindo demonstrações, recursos, e realizações que representam um indivíduo, grupo, comunidade, organização, ou instituição. Esta colecção pode ser compreendida por texto, gráficos, ou elementos multimédia arquivados num Web site ou noutro meio electrónico como um CD-ROM ou DVD.“ [Lorenzo & Ittelson, 05]

Esta definição alberga os elementos comuns constantes nos portefólio tradicionais. Mas os portefólio digitais não devem ser apenas um aglomerado de trabalhos realizados, eles devem ter uma forte componente educativa a eles associada. Citando uma definição de portefólio elaborada por educadores da Northwest Evaluation Association em 1990, Helen C. Barret no seu artigo “Electronic Portfolios, A chapter in Educational Technology” apresenta a seguinte definição:

“Um portfólio é uma colecção de trabalhos de um estudante com um propósito que expõe os seus esforços, progresso e realizações numa ou mais áreas. A colecção deve incluir a participação do estudante na selecção de conteúdos, o critério de selecção, o critério para julgar o mérito, e evidência da auto-reflexão do estudante.”
[Barrett, 01)]

1.3. Evolução


Os portefólio digitais, por uma versão têm, a sua origem nos portefólio artísticos. Estes eram normalmente constituídos por trabalhos gráficos de artistas e eram organizados em pastas com uma ordem cronológica, temática ou outra de uma selecção e actualização constantes. Por outra versão, o primeiro conceito de portefólio surgiu quando os pais começaram a recolher os trabalhos escolares dos seus filhos, guardando-os em enormes caixas. Independentemente do tipo de trabalho ou exame presente nessas caixas, essa reunião de elementos académicos representavam as competências e aptidões adquiridas pelos seus filhos ao longo dos vários anos de estudo.
Com o aparecimento dos primeiros computadores pessoais em meados dos anos oitenta, os portefólio, sustentados pelas novas tecnologias, adquirem um novo dinamismo e um aumento significativo do seu potencial. Os seus conteúdos passam a ser digitalizados e editados pelo autor, sendo facilmente arquivados e reproduzidos. O CD-ROM torna-se o suporte digital por excelência devido à sua enorme capacidade, preço reduzido e grande portabilidade. O surgimento da Internet permitiu uma divulgação mundial de conteúdos, acessíveis em qualquer lugar, e constantemente actualizáveis.

1.4. Fundamentos e aplicações

É importante a consciencialização de que os portfolios digitais são muito mais do que meros repositórios de trabalhos e informação.
“No entanto, apesar dos conteúdos poderem ser consultados na Web, o e-Portefólio não é simplesmente uma página pessoal com hiperligações para exemplos de trabalhos. Como acréscimo, ao contrário de uma aplicação típica, como um processador de texto, um e-Portefólio é uma aplicação de rede que proporciona ao autor funções administrativas para a gestão e organização de trabalhos (ficheiros) criados em diferentes aplicações e para o controle de quem pode visualizar e comentar o trabalho (acesso). Ao contrário de um sistema de gestão de cursos, no qual os educadores gerem tarefas e materiais do interior da framework de um determinado curso, os e-Portefólio são controlados pelo autor (estudante), que gere o seu trabalho durante diversos cursos ao longo de uma carreira académica.” [Greenberg, 04]


Previamente a uma análise dos diferentes tipos de portfolios digitais que podem ser desenvolvidos, é conveniente enumerar alguns dos vários elementos que podem constar nos mesmos [Siemens, 04]:

• Informação pessoal;
• Historial educativo;
• Reconhecimento - prémios e certificados;
• Comentários de reflexão;
• Trabalhos d e-Learning e curso - Tarefas, projectos;
• Comentários do educador;
• Comentários do antigo empregador;
• Objectivos, planos;
• Valores e interesses pessoais
• Apresentações, artigos;
• Actividades pessoais - trabalho de voluntariado, desenvolvimento profissional;
• Todos os artefactos incluídos devem ter um propósito - deverão demonstrar uma habilidade, um atributo e aprendizagem adquirida da experiência.



Existem diversos objectivos e características que podem estar associados a um portefólio digital. Segundo George Lorenzo e John Ittelson os portefólio têm seis funções primordiais [Lorenzo & Ittelson, 05]:

Planear programas educativos;
• Documentar conhecimento, capacidades, habilidades e aprendizagem;
• Registar desenvolvimento num programa;
• Procurar um emprego;
• Avaliar um curso;
• Monitorizar e avaliar o desempenho.


Os portefólio digitais podem ser divididos em três grandes categorias: de estudantes, de ensino e institucionais.

Portefólio digitais de estudantes

São úteis para revelar competências dos alunos, sendo também usados como um registo das experiências de aprendizagem. Contribuem para um estímulo do espírito crítico dos estudantes, para um melhoramento das suas capacidades de escrita e comunicação multimédia, assim como para o desenvolvimento dos conhecimentos informáticos e tecnológicos dos seus utilizadores.

Portefólio digitais de ensino

Os portefólio digitais de ensino servem como documentação de competências e realizações para evolução na carreira. São também utilizados para propósitos de reflexão e de aprendizagem, tornando as práticas individuais de ensino públicas e, por conseguinte, acessíveis para uma aprendizagem colectiva e de partilha de conhecimentos.

Portefólio digitais institucionais

Este tipo de portefólio digitais, relativamente novo, incorpora os dois tipos de portefólio mencionados anteriormente, assim como portefólio digitais de um variado número de programas e departamentos. Um portefólio digital institucional apresenta habitualmente uma selecção de trabalhos, informação e análise que demonstre a sua responsabilidade institucional e sirva como um veículo para reflexão, aprendizagem e melhoramento a nível da instituição.

2.1. Implementação de portefólio digitai


Previamente à utilização de portfólios digitais como um recurso educativo numa instituição de ensino, deverá ser escolhido o melhor sistema de criação e gestão dos mesmos. Existem tipicamente quatro abordagens que poderão ser utilizadas por parte dessas instituições para a implementação de portefólio digitais [Lorenzo & Ittelson, 05]. Poderá ser desenvolvido internamente um sistema de portefólio digitais à medida, ser utilizada uma plataforma open source, um sistema de portefólio digitais comercial ou criar cada portefólio através da utilização de ferramentas comuns de desenvolvimento. Cada uma destas abordagens tem benefícios e desvantagens, que serão alvo de análise.
O desenvolvimento de um sistema de portefólio digitais à medida, numa instituição de ensino, através de técnicos pertencentes à mesma, tem inúmeras vantagens: permite uma personalização às necessidades específicas da instituição, não depende do pagamento de licenças e possibilita à instituição deter os direitos de autor aquando da sua conclusão. No entanto acarreta consigo alguns constrangimentos que deverão ser considerados: o elevado custo de hardware e software, a grande quantidade de tempo, energia e conhecimentos técnicos necessários aquando do seu desenvolvimento, assim como os gastos imprescindíveis para a manutenção da plataforma.
Dados serem sistemas não proprietários, não acarretam consigo nenhum custo inerente à utilização dos mesmos. O facto de estarem em constante actualização também pode ser considerada uma vantagem, na medida em que poderão ser implementados melhoramentos e novas funcionalidades ao sistema. Existem, porém, custos associados ao suporte técnico da mesma e o facto de depender exclusivamente de uma comunidade, pode ser um factor de insegurança, nomeadamente no caso de a iniciativa ser dissolvida e a comunidade de desenvolvimento extinta.
Existe ainda a possibilidade da criação dos portefólio digitais ser efectuada através de ferramentas comuns de desenvolvimento, tipicamente editores HTML. A utilização deste tipo de
software possibilita uma criação de portefólio mais personalizada devido à liberdade que proporciona. O facto de o utilizador não depender de templates predefinidos com limitações a nível de base de dados, é claramente uma das mais-valias relativamente a outro tipo de abordagens. Outra das vantagens da utilização destas ferramentas é o facto do custo associado às mesmas ser reduzido ou mesmo inexistente no caso das ferramentas usadas serem freeware ou open source. Esta opção tem no entanto uma condicionante que é o facto de exigir um sólido conhecimento técnico de código HTML e de tratamento de imagem, dado o portefólio digital ser criado de raiz pelo seu autor e não através de templates como os casos anteriores.
Conjugando os vários passos do processo de desenvolvimento multimédia com os do processo de desenvolvimento de um portefólio, Helen C. Barret define as seguintes fases do desenvolvimento de um portefólio digital [Barrett, 01]:

Definição do contexto e objectivos do portefólio
Nesta primeira fase as principais tarefas consistem em identificar o contexto de avaliação e os objectivos do portefólio.

O portefólio do desenvolvimento

Esta fase ocupa o maior espaço de tempo e envolve a selecção do software de desenvolvimento apropriado para o contexto do portefólio e os recursos disponíveis.

O portefólio reflectivo

No portefólio formativo as reflexões ocorrem tipicamente como marcos significativos da aprendizagem. As reflexões sobre o próprio trabalho são um requisito para que o autor possa obter uma aprendizagem do processo.

O portefólio interligado

Até certo ponto esta fase é única no portefólio digital, dada a capacidade do software em criar hiperligações entre documentos, quer localmente, quer na Internet. Nesta fase deve-se proceder à inserção de hiperligações entre objectivos, resumos de trabalhos, rubricas e reflexões, assim como de conteúdos multimédia e tabelas de conteúdos para estruturação do portefólio.

O portefólio apresentável

Nesta fase o portefólio é guardado numa apresentação e meio de armazenamento apropriados. Dependendo do tipo de portefólio, este deverá ser disponibilizado em cassete de vídeo, CD-ROM, num servidor local ou na Internet. O portefólio deverá ser apresentado perante uma audiência real ou virtual como realização dos objectivos representados.

2.2. Plataformas existentes

Apesar de existirem diversas ferramentas genéricas que podem ser utilizadas para a criação de portefólio digitais tais como editores HTML, geradores de blogs e Content Management Systems (CMS), estes não são criados de raiz com funcionalidades específicas para o desenvolvimento dos mesmos. Por outro lado, as plataformas existentes criadas de raiz para esse efeito são maioritariamente comerciais, limitando de certa forma um acesso massificado às mesmas.
As plataformas pretendem apoiar actividades baseadas em portefólio digitais através da disponibilização de um ambiente onde um utilizador, como autor de um portefólio, está capacitado para exibir o seu trabalho. A esse utilizador são fornecidas ferramentas que permitem: a recolha de conteúdos que melhor representem as suas realizações pessoais, a sua aprendizagem ou o seu trabalho; a reflexão sobre esses elementos e suas interligações; a concepção e criação de um portefólio que demonstre o resultado da selecção prévia e a publicação do portefólio a uma audiência determinada.

Além do facto das ferramentas estarem disponíveis para alunos e educadores, estas também estão disponíveis para avaliadores, administradores e coordenadores CIG (Common Interest Groups), providenciando estrutura e direcção aos autores de portefólio acerca do desenvolvimento dos mesmos. O coordenador CIG é responsável pela gestão dos conteúdos guardados para a utilização de um workshop CIG e de ferramentas utilizadas para a recolha de informação dos participantes da CIG. A zona CIG representa uma área onde os membros interagem e colaboram, servindo de repositório de conteúdos e de contextualização para a sua interacção. As ferramentas de análise de portefólio permitem a medição da eficácia e dos resultados educativos, podendo estes serem avaliados ou comentados.


3. O futuro dos e – Portefólio


A utilização dos portefólio digitais apresenta características únicas, devido às suas características. A organização a partilha de dados e a sua divulgação, contribui para o enriquecimento cultural/intelectual por parte dos seus utilizadores. A utilização das novas tecnologias dentro e fora das aulas, permite a aquisição de novas competências que favorecem o uso de plataformas digitais nas escolas.
Como grande vantagem devemos salientar que as plataformas digitais permitem uma troca constante de informação útil e necessária ao desenvolvimento das sociedades.
É neste domínio que as plataformas de gestão de portefólio digitais podem ter um papel importante. As suas ferramentas e funções, juntamente com uma interface consistente e cuidada, são de grande auxílio no sentido de promover uma organização ponderada sobre os conteúdos que são alvo de análise e divulgação.
Mas um conjunto de plataformas não é suficiente para a criação, manutenção e evolução sustentada de uma comunidade educativa. É preciso realizar estudos profundos sobre a publicação de eventuais standards que permitam a comunicação entre as diferentes plataformas.
O estudante deve ter a possibilidade de actualizar o seu portfolio ao longo de toda a vida, sem limitações relativas à compatibilidade de plataformas ou software.
Apesar das vantagens dos portefólio digitais ainda existem obstáculos à sua utilização. A falta de divulgação e informação sobre as suas potencialidades nas escolas é um aspecto negativo que deve ser rapidamente ultrapassado. Também o número reduzido de plataformas open source, criadas para a gestão de portefólio digitais, em parte, põe obstáculos à sua utilização. É ainda de salientar que a falta de infra-estruturas tecnológicas em muitas escolas é um factor de impede a expansão das plataformas.
As escolas têm um papel importante na utilização e progresso dos portefólio digitais. Se forem usados, desde o início do percurso lectivo pelos alunos, podem contribuir para uma evolução construtiva e sustentada dos conhecimentos. O aluno tem de organizar os seus conhecimentos e posteriormente deve reflectir sobre o trabalho que desenvolveu. É por isso importante que os professores valorizem a utilização dos portefólio por parte dos seus alunos.

Para existir aprendizagem com eficiência, os alunos têm que estar motivados. Para estarem motivados, têm que estar interessados. Eles ficarão interessados quando estiverem envolvidos em projectos com os quais se identifiquem em valores e objectivos de vida”. (Gus Tuberville – William Penn College)